Tesouro em vasos de barro

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O apóstolo Paulo, na defesa de seu ministério perante os crentes de Corinto, mostra um paradoxo: a grande riqueza do Evangelho, impulsionado pela Graça de Deus, veiculado na estrutura frágil e espiritualmente opaca do ser humano: “Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (2 Co 4.7).

Paulo usa o contraste entre a glória de Deus presente em seu ministério e a desvalorizada figura humana, em seu corpo sofrido; entre a excelência da ação divina e a fraqueza de seu ministro; entre a mensagem do evangelho e o mensageiro do evangelho. Esse contraste mostra aos destinatários da mensagem a legitimidade do ministério de Paulo. Como até sua aparência e postura física foram usadas por seus adversários na Igreja de Corinto para desvalorizar seu ministério (2 Co 10.10), Paulo mostra aos crentes que o ministério cristão é legitimado pelo tesouro que carrega e não pelos atributos pessoais de quem é comissionado para o evangelho.

O tesouro

O tesouro é um elemento motivador na aventura humana. Por um tesouro os homens fazem planos e os executam com diligência, deixam famílias, correm riscos, rompem barreiras, partem para o desconhecido, exploram o mundo. Assim é o discipulado e o ministério cristão. Jesus compara o Reino dos Céus a um tesouro escondido e a uma pérola de valor inestimável. Quem o descobre vende tudo o que tem para investir nesse tesouro (Mt 13. 44, 45). Os cristãos da Igreja primitiva tiveram essa percepção e colocaram em prática esse investimento (At 2.45).

Esse tesouro é o resplendor de Deus em nossos corações que proporciona aos perdidos o conhecimento da glória de Deus expressa em Jesus Cristo (2 Co 4.6). É o próprio exercício do ministério (2 Co 1.12; 4.1,); é a glória dos resultados alcançados na salvação dos pecadores e na edificação da Igreja (2 Co 1.14). A glória do Senhor refletida em nós (2 Co 3.18) remove a venda dos olhos dos perdidos (2 Co 3.14-16, 4.4-6) porque é a manifestação da luz de Cristo, já que o próprio Cristo se reflete em nós. É o próprio Cristo que passa a viver na existência do crente. É a Igreja, sua edificação e comunhão. É a certeza da glória futura já evidenciada nas realizações da fé presente.

Paulo tinha seu ministério marcado pela coragem e franqueza (At 21. 39,40; 22-28). Não se constrangia quando necessitava falar de suas qualidades como apóstolo (1 Ts 2.1-12), demonstrando auto-confiança nas suas ações, consciente da própria sinceridade e corroborado com os resultados dados por Deus (2 Co 1.12-15; 1 Ts 2.1; 2 Tm 4.7,8). Por outro lado, reconhecia que sua conduta e seu trabalho eram frutos da misericórdia e da graça de Deus (1 Co 7.25; 15.9-10; Gl 1.15; 1 Tm 1.13,16), e que essa graça era dada segundo a vontade soberana do Criador (Rm 1.15-16). O ministério cristão é dom de Deus, é continuamente sustentado por Deus, em que é insuficiente a iniciativa e o esforço pessoal do ministro. Qualquer qualidade humana utilizada no serviço, em último caso, também é graça de Deus. Por ser um ministério tão glorioso decorrente da misericórdia divina o cristão não desfalece, não desiste, não perde a coragem (2 Co 4.1).

A glória do ministério cristão é viver na vontade de Deus, ao invés de procurar satisfazer as próprias paixões; pregar a Palavra da Verdade, ao invés de tentar impor as próprias opiniões; aceitar prejuízos pessoais, a fim de beneficiar o próximo e trazer os pecadores à salvação. O foco do ministério está no tesouro e não no vaso.

Os vasos

Vasos de barro não são atrativos e não possuem glória própria. Esta é a condição humana. A glória do homem é como a flor do campo, temporária, insegura e continuamente sujeita ao desaparecimento (Is 40.6). A auto-estima de Paulo manifesta na segunda carta aos coríntios só é cabível porque ele reconhece sua utilidade em levar o tesouro do Evangelho. Seu valor decorre da presença de Cristo em sua vida (Gl 2.20). Os vasos de barro são frágeis, facilmente racham ou quebram. A qualquer momento podem cair e voltar a ser pó (Ec 12.6). A glorificação eterna dos salvos é reservada para o futuro. Agora é tempo de “leve e momentânea tribulação” que será creditada nessa glória futura (2 Co 4.17). Paulo é sensatamente humilde quando se compara a um vaso de barro e não a um raro objeto de arte, um vaso de bronze ou um utensílio dourado. Diferente das obras de arte, um vaso de barro é amplamente acessível a qualquer pessoa, pobres e ricos. Por isso, a poder do Evangelho, contido no vaso, atinge pessoas de todas as classes sociais.

Quando um vaso de barro se quebra ou sofre uma rachadura, em virtude de seu pouco valor, poucas pessoas se interessam em reparar o dano para continuar utilizando o vaso. Normalmente o vaso é descartado e substituído. Essa é uma realidade que muitos servos de Deus enfrentam em seu ministério. Se cometer um erro, se pecar e arrepender-se, mesmo ciente do perdão divino, terá que lidar perpetuamente com a reprovação dos seus irmãos. Essa conseqüência leva muitos obreiros a tentar exercer seu ministério em outros lugares. Deus, porém, promete que o arrependimento o leva a modelar novamente o vaso, modelando-o de acordo com a sua vontade soberana (Jr 18.1-8). Ele sempre dá uma oportunidade de restauração a quem está sob seu juízo.

Na restauração do vaso, o Oleiro o coloca na roda (Jr 1.3). O vaso movimenta-se, mas não sai do lugar. O cristão que passa por esse processo está constantemente se movimentando, mas ainda não vê resultados de seu esforço. É a necessidade de aperfeiçoamento que o mantém na roda. Porém, enquanto permanece na roda, sendo modelado por Deus, sabe que as mãos do Senhor estão sobre si.

Por causa de sua fragilidade, o vaso não pode proteger o tesouro que carrega, a não ser da poeira e da umidade. Isso enfatiza o contraste entre o imenso poder de Deus e a fragilidade humana. Deus é que dá segurança ao salvo quando habita em seu coração. Os vasos são quebradiços porque são de barro, mas conseguem manter-se intactos após sofrerem impactos, quedas, ataques, agitações, mudanças bruscas. Isso se deve a esse poder divino que mantém a integridade do vaso que o carrega mantendo unidos os seus cacos.

Esse paradoxo permite ao mundo perceber que a glória mensagem da salvação não decorre da habilidade do pregador, mas emana do próprio Deus. Paulo defende com convicção seu ministério e isso poderia tentar seus destinatários a reverenciar mais o receptáculo que a fonte do poder espiritual. Mas esta figura do vaso de barro dá plenas condições aos coríntios de perceberem que a glória vem do Senhor.

Assim, o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12.9), que é requisito para o Senhor continuar operando. A arrogância e o orgulho são impedimentos para o homem carregar em si a glória de Deus. Só pode ser discípulo quem renunciar a si mesmo (Lc 14.33). Somos mais fortes quando confiamos menos em nós mesmos e mais no poder de Deus que se manifesta através de nossas vidas.

O sofrimento

Jesus estabeleceu a condição para ser um de seus seguidores: negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo (Lc 9.23). Ao negarmos nossos próprios interesses, a figura de Cristo passa a aparecer em nós e os interesses do Reino de Deus tornam-se prioridades em nossas vidas. Os cristãos imitam seu Senhor. Levar a cruz significa aceitar completamente o modelo de Cristo, até a morte, para que outros possam ver a glória de Deus em nós.

Jesus predisse que no mundo teríamos aflições (Jo 16.33). Mas insta-nos a manter o ânimo, porque Ele venceu o mundo. Nesse discurso Jesus já imaginava sua vitória sobre o mal e, necessariamente, podia vislumbrar seu próprio sofrimento para pagar os pecados da humanidade e o sofrimento dos cristãos para anunciar o evangelho.

Paulo não despreza o próprio sofrimento nem o tem por insignificante. Suas tribulações chegavam ao limite do que poderia suportar (2 Co1.8), tanto que pedia a Deus o alívio do sofrimento (2 Co 12.8). Somente consegue considerá-lo leve quando o compara com a grandeza da glória eterna (2 Co 4.17). Se a glória humana é mera vaidade, sem significado permanente (Sl 42.16,17; 1 Pe 1.24), também é passageiro o opróbrio do justo (Sl 31.11-24; Is 25.8,9).

Quando elenca os seus sofrimentos, Paulo não deseja passar uma imagem de super-herói do cristianismo que aceita grandes riscos e lutas por causa do evangelho nem deseja insinuar alguma imunidade ao sofrimento. Também não pretende despertar a empatia dos coríntios para si. O que pretende é mostrar que tantas tribulações não o destroem porque descansa nos braços de Deus; Ele é quem o sustenta; o amor e o poder de Deus operam em sua vida.

Paulo faz uma descrição antitética de sua experiência sofredora, do caráter de suas tribulações e da resiliência proporcionada pela graça divina.

Primeiro, afirma que em tudo é atribulado (2 Co 4.8). Essa tribulação significa ataques e pressões vindos de todos os lados, sem direito a descanso e, ainda mais, o tormento oriundo de sua própria alma (2 Co 7.5). No entanto, afirma que não está acuado, anulado, imóvel. Permanece atuante na causa do evangelho. Paulo pregava em algumas cidades e quando era atacado fugia e continuava a obra em outro lugar (At 14). Essa perseverança caracterizou-o como o instrumento mais efetivo na evangelização dos gentios na Igreja primitiva e produziu frutos duradouros para a expansão do evangelho até os confins da terra.

O segundo item de sua lista é a perplexidade. Revela como a tribulação tende a desafiar o equilíbrio mental do cristão, colocá-lo em dúvida, assim como o vento produziu repentina e transitória incredulidade no coração de Pedro (Mt 14.30). A pessoa que se dispõe a fazer a obra de Deus eventualmente terá dificuldades de compreender certos momentos difíceis, tais como cansaço extremo, a depressão, o estresse, o silêncio de Deus, falta de correspondência dos resultados da obra com seus esforços e injustiças oriundas até de aliados na obra. Mas essa perplexidade também não interrompe o progresso do ministério.

Paulo também cita a perseguição constante que sofre, mas não se sente abandonado, mesmo quando os coríntios o abandonaram. Jesus anteriormente alertou seus discípulos que a perseguição viria; da mesma forma que Cristo foi perseguido, os cristãos seriam (Jo 15.20). Paulo fala de abandono usando o mesmo termo que Jesus usara quando crucificado (Mc 15.34). Tinha consciência que Deus não abandona quem Lhe pertence (Dt 31.6,8; Sl 23.4; Jr 15.20; Hb 13.5). A injusta perseguição contra os seguidores de Cristo proporciona-lhes a herança do Reino dos Céus (Mt 5.10).

Por fim, fala dos ataques, das tentativas de destruição que sofria, das doenças, dizia-se abatido. Porém esses ataques não o destruíram. Nem mesmo a morte o destruiria (Fp 1.20). Sofreu violência física mais que outros sofreriam por amor do evangelho. Era derrubado, mas não derrotado; levantava-se e continuava a pregar e a ensinar. Em Filipos, junto com Silas, foi açoitado injustamente e jogado na prisão. Os dois dignaram-se a louvar a Deus em meio ao sofrimento, Deus os livrou e ainda deu-lhes equilíbrio emocional para pregar a Salvação ao carcereiro (At 16.22-34).

Fitzgerald afirma que Paulo era um vaso de barro, quebrado pelos sofrimentos. Porém, seus cacos não se espalhavam, como se o poder dentro do vaso mantivesse unidos seus cacos. Assim, entre as suas rachaduras brilha a luz da vida de Jesus para iluminar outras pessoas.

Esse quadro mostra que os ministros de Deus devem procurar ser fiéis e não admiráveis. Pregadores que buscam o brilhantismo diante da platéia, pastores que simplesmente tentam atender os desejos de sua comunidade - muitas vezes isso os leva à exaustão (inútil) - estão alienados da mensagem da cruz porque Cristo crucificado parece loucura para os homens (1 Co 1.18). Muitos sentem dificuldades em mostrar que o evangelho se revela na fraqueza humana. Disso decorrem os erros doutrinários presentes nas pregações que procuram estabelecer a prosperidade material como requisito à vida cristã.

O resumo do apostolado de Paulo é a dialética da própria mortificação que mostra a vivificação de Cristo. Há um paralelismo entre o seu sofrimento e o sacrifício de Cristo. Decorre dessa realidade a esperança da vida com Cristo na eternidade: assim como Cristo ressuscitou, os salvos ressuscitarão para a glória (1 Co 15.20-23; 2 Co 4.14). Sua vida tinha o supremo propósito de produzir frutos para o Reino de Deus (Fp 1.22). Assim, o evangelho será pregado mesmo que seu ministério seja marcado pelo extremo sofrimento na vida terrena.

O futuro glorioso

O grande segredo que Paulo tenta esclarecer nesse discurso é o entendimento entre o homem exterior e o interior; entre o físico e o espiritual. O quadro abaixo mostra a comparação.

Físico – exterior

Espiritual - interior

Referência

Desgasta-se, padece, corrompe-se.

É renovado a cada dia

2 Co 4.16

Leveza das tribulações

Peso da glória futura

2 Co 4.17

Momentâneo

Eterno

2 Co 4.17,18

Vive em aflição

Viverá em glória

2 Co 4.17

Atualmente visível

Atualmente invisível

2 Co 4.18

Moradia em tenda, provisória

Moradia em edifício, permanente

2 Co 5.1,2

Moradia terrestre

Moradia celestial

2 Co 5.1

Moradia destrutível

Moradia eterna

2 Co 5.1

Nus

Vestidos em glória

2 Co 5.2-4

Mortalidade

Vida

2 Co 5.4

Preso ao corpo

Vida com o Senhor

2 Co 5.7-9



O homem exterior pertence à dimensão mundana, é desgastado e é avaliado de uma perspectiva carnal; o homem interior pertence à eternidade, para onde está sendo preparado. Enquanto o corpo envelhece, mostras os sinais de desgaste, o espírito rejuvenesce, é revigorado e aproxima-se do ideal de Cristo. Somente Deus e a própria pessoa (em parte) podem perceber esse fortalecimento espiritual decorrente da regeneração e da santificação.

A vida futura do cristão está escondida em Cristo. Na eternidade, participaremos da beleza da natureza moral e metafísica do Senhor. A fragilidade da carne potencializa os sofrimentos terrestres. Porém, quando estivermos transformados em glória, em um corpo incorruptível, não mais de barro, realizaremos, mais do que podemos hoje conceber (2 Co 12.4), o gozo da eternidade (1 Ts 4.17). Esse tesouro é de todos os que colocarem Cristo como centro de sua vida.

REFERÊNCIAS

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