Redescobrindo a alegria de ir à igreja

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Uma Contextualização de 1 Tm 3.15 “(...) Como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade”.


Pastores de igrejas, missionários e cristãos fervorosos hão de convir que está ocorrendo um fenômeno que é cada vez mais evidente: Muitos cristãos estão perdendo o entusiasmo pela igreja! Não que os templos estejam necessariamente vazios, mas torna-se notório que muitos dos presentes na assembléia dos santos estão alheios ao culto. E penso que isto é ainda mais notório e mais verdadeiro aqui na Europa.

Este comportamento preocupante entre o povo de Deus tem me chamado a atenção e claro, tem sido alvo de minhas constantes orações. Despertado por Deus para compreender este fenômeno comportamental entre os fiéis, me vi envolvido em várias leituras sobre o assunto e para o meu alívio, constatei que o fenômeno não é isolado; há muitos outros líderes em muitos outros lugares e países lutando contra o mesmo problema. Nas minhas reflexões, compreendi que o que está ocorrendo não é nada menos do que o secular sufocando e tentando aniquilar o sagrado. Constatamos tristemente que o efêmero está atraindo muito mais do que o eterno.

É certo que não se chega neste estado de apatia de um instante para o outro; o crente não vai dormir fervoroso e acorda resolvido que a partir daquele dia vai estar indiferente à sua igreja, não! Tudo faz parte de uma orquestração maligna. Nã querendo demonizar o assunto, já que em última instância tudo depende do nosso consentimento, mas existem sim muitos fatores que contribuem decisivamente para este estado de coisas, num processo lento, porém, corrosivo.

A Igreja Influenciada Pelo Pensamento Secular

O termo “secular”, no sentido eclesiástico, é utilizdo para identificar tudo aquilo que é oposto ao espiritual, transcendente, eterno. Numa visão macro, em uma sociedade secularizada o sagrado perde o seu valor e o profano ocupa o lugar deste. A idéia do eterno torna-se cansativa, distante e utópica, cedendo lugar para a idéia do imediato. Nesta vertente, a religião tem algum sentido apenas nas coisas práticas, imediatas e o pastor evangélico é colocado em pé de igualdade com o padre católico ou com o rabino judaico, necessários apenas nas cerimônias sociais, como casamentos, formaturas, funerais, inauguração de espaços públicos ou coisas que o valham. Ir além disso já foge da esfera secular e passa a ser convenientemente evitado. Numa visão micro, na mente regida pelo secularismo os conceitos e instituições de cunho religioso deixam de ter a conotação de representação do sagrado, que outrora tivera.

Pode se estar perguntando: O que isso tem a ver com a igreja evangélica? Tudo! Se cada evangélico nos seus conceitos não devolver à igreja cristã evangélica a conotação de representação do divino, do sagrado, da autoridade, tal qual ela foi concebida (Mt 18. 17,18), facilmente se estará praticando uma “religião de aparências”, a qual deságua no conceito humanista secular. Ora, tal conceito, cujo principal defensor foi o filósofo grego Protágoras, partia do princípio que “O homem é a medida de todas as coisas”. O que tal conceito traz no seu bojo é a idéia de que “é o homem, e não Deus, o padrão final que julga e avalia os valores do certo e do errado, da lei, do belo, da justiça, do bem e do mal”. Tal forma de pensar traz para o inconsciente das pessoas a noção de que a espiritualidade, demonstrada na fé e no culto a Deus, é algo sem significado, vazio, e por isso mesmo o homem atual pode muito bem prescindir destas coisas. A Bíblia, por sua vez, é vista como um livro antigo demais, talvez válido pelo seu valor cultural, histórico e até literário, mas jamais é vista como o depositário da Revelação e da vontade de Deus para com a humanidade.

É certo que este não é o retrato da autêntica Igreja do Senhor Jesus, aquela que constitui o Seu Corpo místico na terra, incumbida de anunciar “todo o desígnio de Deus” (At 20.27). Os crentes autênticos ainda existem e ouso dizer que existem num número muito maior do que muitos imaginam. E isto não é mera conjectura otimista, se tomarmos por base a experiência muito pior vivenciada por Elias. Quão grande foi a sua surpresa ao se queixar que ele era o único remanescente dos fiéis. A resposta divina foi que ainda haviam outros sete mil que não se dobraram diante da encantadora religião de Baal (1 Re 19.18). Como é perceptível, longe de estarmos generalizando. Podemos imaginar quão numeroso é o exército de crentes sinceros, líderes em geral e pastores fiéis que estão preocupados e até mesmo perplexos e angustiados diante da indiferença de muitos cristãos nominais. Contudo, não podemos negar que no seio desta igreja genuína, há uma parcela cada vez maior cedendo aos “encantos” da secularização. Líderes que não se incomodam com a situação pois eles mesmos já adotaram esta filosofia de vida. Legados doutrinários valiosos deixados pelos apóstolos bem como heranças éticas e comportamentais deixadas pelos pioneiros estão sendo negociadas, contribuindo para a descredibilização desta instituição divina, a saber, a Igreja. Soma-se a isso os efeitos devastadores das mídias negativas, que rugem como leão, buscando a quem possam denunciar, buscando incutir no cidadão a opinião de que a Igreja é uma instituição falida.

Cristãos Sem Compromisso e/ou Sem Igreja

Por não ter um senso crítico capaz de filtrar informações veiculadas pelos tipos de mídias sobreditos, muitos são os que adotam um comportamento frio e indiferente para com a igreja na qual congregam e cedo desaparece o sentimento de lealdade para com a sua liderança espiritual. Até vão à igreja, mas não tem qualquer compromisso com a mesma. Fazem parte do grupo dos “caroneiros eclesiásticos”, cuja filosofia é a seguinte: “Você compra o carro, paga as revisões, manutenções e o seguro; abastece-o e eu vou na carona com você. Mas, se acontecer um acidente, não conte comigo e provavelmente eu ainda vou processar você”. Assim é o credo de muitos frequentadores das igrejas hoje: “Você começa um trabalho, organiza um local confortável para os cultos, paga todos os custos, e eu “apareço” por lá. Mas se as coisas não me agradarem, vou criticar, reclamar e posso até te denunciar-lhe e vou a procura de uma igreja melhor”. O típico caroneiro frequenta a igreja para ouvir uma pregação que lhe agrade, manda os filhos para outra igreja onde tem uma programação dinâmica, voltada para os jovens e anda sempre a procura de festividades por aí, para se entreter. Diante do exposto, presenciamos no presente século o que jamais víamos: cristãos, porém sem igreja. Possuem um vocabulário próprio que inclui: “eu vou”, “eu assisto” mas nunca “eu pertenço”, “eu sou membro da igreja tal”.

A Importância da Igreja

Nosso principal objetivo nesta proposta literária é convocar, por meio da reflexão, o distinto leitor e muito especialmente aqueles que se ocupam do ofício sagrado a resgatar o sublime valor desta instituição divina, de composição humana chamada Igreja. Obviamente que existem muitas porções bíblicas que exaltam o valor e a importância da igreja na vida pessoal, familiar, comunitária e social; mas penso que nem um texto é tão rico e atenda tanto este nosso anseio de ver a igreja como um local santo quanto Hebreus 12.22-24:

“Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; (23) À universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; (24) E a Jesus, o Mediador de uma nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel.

Aqui residem pelo menos seis grandes verdades a considerar, as quais serão apenas nomenclaturadas, não nos atendo à exegese da mesma pela natureza breve deste escrito.

  1. Chegamos à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial”. No Antigo Testamento Jerusalém simbolizava a morada terrena de Deus. Em o Novo Testamento o autor aos Hebreus (a quem a epístola foi originalmente escrita) nos leva a crer que em Cristo a igreja tornou-se a contrapartida daquela, ou seja, a Jerusalém celestial.

  1. “e aos muitos milhares de anjos”. No momento em que a igreja se reúne para o santo culto, os santos anjos, num festim de glória, descem até nós para nos assistir neste sublime ofício. Ora, se cremos que Deus se faz presente em nossos cultos, e Ele mesmo nos assegurou que se faz, ainda que sejam apenas dois ou três reunidos em Seu nome, não é de duvidar que ele o faça rodeado por exércitos angelicais. Moisés nos conta que “miríades de santos” assistiram a entrega da lei (Dt 33.2). Davi, inspirado pelo Espírito, nos diz quantos são os anjos que andam com Deus e em que aparato (Sl 68.17). Quando Deus apareceu a Jacó numa visão, na qual este viu os anjos de Deus que subiam e desciam por uma escada, cujo topo chegava ao céu, após a visitação de Deus, Jacó despertou do sono e exclamou profeticamente: “Quão temível é este lugar! É a Casa de Deus, a porta dos céus” (Gn 28. 17).

  1. À universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus”. Quando chegamos para o culto, nos reunimos numa assembléia de salvos, onde não há privilegiados, mas todos tém os seus nomes inscritos nos céus. Por isso o célebre encorajamento para que vivamos em união (Sl 133).

  1. “e a Deus, o juiz de todos”. Ele merece todo o respeito e devoção. Lógico que não nos referimos àquele temor medroso, constrangedor, afinal, o Seu Filho já nos justificou perante este Juiz (aleluia!). O salmista nos explica este temor de uma maneira mais clara: “Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (Sl 130.4) O restante do Salmo aborda o paradoxal anseio do pecador em se encontrar com Deus que deve sim ser temido, mas que se revela com uma misericórdia desconcertante.

  1. e aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. Estes já venceram, encontram-se no céu, já triunfaram; mas o que se enfatiza aqui é que a igreja, nas suas reuniões de cultos, divide as mesmas alegrias pela presença do Senhor, assim como ocorreu com os patriarcas, os profetas, enfim, com os justos do A. T., bem como todos os que confessaram a Jesus como salvador pessoal. “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8)

  1. E a Jesus, o Mediador de uma nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel. Quando chegamos com sinceridade para prestarmos um culto sincero a Deus, somos levados a reconhecer que precisamos do seu perdão e é isso mesmo o que acontece, através de “Jesus, o Mediador de uma nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel”. O sangue de Abel clamou por condenação e julgamento, mas o sangue da aspersão (de Jesus) proclama que estamos perdoados e temos paz com Deus (Rm 5.1).

Muitas outras imagens deslumbrantes são utilizadas em o Novo Testamento num esforço de elevar nossa mente a captar a grandiosidade do privilégio de pertencer à Igreja. Constata-se tristemente que muitos assumem uma postura letárgica em muitos momentos da liturgia, não se dando conta de que estão rodeados de miríades de anjos e muito mais, o próprio Deus se faz presente na igreja. (Sobre a necessidade do pregador também cooperar para manter seu auditório atento, leia neste Portal o Artigo: Pressupostos para uma pregação eficaz em tempos pós-modernos).

Particularmente, creio que fazemos parte da maior instituição que o mundo jamais conheceu, mas somos tragicamente diminuídos e por vezes nos conformamos com isso.

Não se deixe enganar, todos precisam da igreja e se envolver com ela! De antemão, rejeitamos aquela idéia ativista, que fique claro. O que defendemos é a ética do compromisso com a igreja local. Ora, Se o “caroneiro eclesiástico” causa repulsa, o compromisso frouxo não está em posição melhor. O texto sagrado nos exorta: “Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia" (Hb 10.25).

Da próxima vez que formos ao culto, vamos com a consciência do salmista: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor”.


Soli Deo Glória!

Pr. Samuel Silva, Secretário Exec. da COMADEUR (Conv. Dos Ministros das Ass. de Deus para a Europa). Missionário credenciado pela SENAMI. Preside a ADM em Almada - Portugal.

Referências Bibliográficas:

MULHOLLAND, Dewey. Teologia da Igreja: uma igreja segundo os propósitos de Deus. São Paulo: Shedd Publicações, 2004.

AYRES, Antônio Tadeu. Como entender a pós-modernidade: os desafios de conduzir a igreja segundo os princípios bíblicos. São Paulo: Editora Vida, 1998.

HUGHES, R. Kent. Disciplinas do homem cristão. Rio de Janeiro: CPAD. 6 ed. 2008.