Saúde emocional: aprendendo a lidar com as crises de ansiedade

Artigos - Artigos

Avaliação do Usuário: / 28
PiorMelhor 

Uma Contextualização de Mateus 6.25-34

Escrito por Pr. Samuel Silva*.

Pelo o que se consta, a medicina, como ciência milenar, sempre olhou para a Psiquiatria e para a Psicologia com certo desdém por considerá-las como ciências novas, imaturas. Todavia, publicações especializadas na área médica dão conta de que nas últimas décadas a medicina tem abandonado sua postura orgulhosa e procurado estudar e tratar o ser humano integral – organismo e psique (alma) -, pois a medicina vem constatando, e cada vez mais, que muitas doenças cardiovasculares, gastrintestinais, etc. têm como causas transtornos psíquicos, entre os quais se destaca a ansiedade. O Senhor Jesus, supremo conhecedor da estrutura humana (Sl 103.14), quando a medicina estava muitíssimo longe de ser o que é hoje, já alertava os seus seguidores a controlar a ansiedade, pois em nada esta ajuda na solução dos problemas. Discursava enfaticamente: “Não andeis ansiosos pela vossa vida.” Com isto, Jesus não estava reprovando de todo a ansiedade, pois esta é um processo natural da personalidade humana; mas que não vivessem ansiosos.

Devemos observar que há um grande diferencial entre o “andar ansioso” e a ansiedade natural, normal, presente em cada ser humano, que se manifesta instintivamente quando estamos preocupados, quando planejamos, quando expressamos um desejo, quando passamos por uma doença ou contrariedade. Só não tem essa ansiedade quem está morto. Todavia, segundo Jesus, essa ansiedade eventual, normal, pode se tornar doentia, um “andar” ansioso. Os problemas ainda não ocorreram, mas antecipadamente já estamos angustiados por eles. Ouça a vóz do Senhor Jesus enquato lê estas linhas: “Não andeis ansiosos pelo dia de amanhã (…)Basta a cada dia o seu próprio mal.” Cristo queria vacinar os seus discípulos contra o estresse produzido por pensamentos antecipatórios. Não abolia as metas, as prioridades, o planejamento do trabalho, pois ele mesmo tinha metas e prioridades bem estabelecidas, mas queria que os discípulos não gravitassem em torno de problemas imaginários.

É espantoso verificar que mais de dois mil anos depois, a medicina admite, por meio da constatação, o que o Senhor, no seu célebre sermão, alertava tão enfaticamente: As preocupações exageradas com a sobrevivência, os pensamentos antecipatórios, o enfrentamento de problemas virtuais, a inversão de valor do ter em relação ao ser, são fatores preponderantes para desencadear um quadro de ansiedade doentia (doenças cardiovasculares, gastrintestinais, etc.). Quanto mais conquistamos bens materiais, mais queremos acumulá-los. Parece não haver limites para a nossa insegurança e insatisfação. Valorizamos mais o “ter” do que o “ser”, possuir bens mais do que ser simples, alegre, acessível, humorado. Tal inversão de valor gera a ansiedade e seus sintomas: insegurança, medo, apreensão, irritabilidade, insatisfação e angústia. A insegurança é uma das principais manifestações da ansiedade. Nunca a indústria do seguro cresceu tanto. Faz-se seguros de vida, de saúde, da casa, do carro; no entanto nunca se viveu com tanta insegurança quanto na geração atual.

O ensinamento de Cristo concernente à ansiedade não era simplista. Era sim muito sofisticado, pois para praticá-lo, seria necessário conhecer uma complexa arte intelectual que todo ser humano tem dificuldade de aprender: A arte de gerenciar os pensamentos! Quem consegue interromper a construção de pensamentos? É impossível. A própria tentativa de interrupção já é um pensamento. Pensamos durante os pensamentos, quando estamos trabalhando, andando, dirigindo. Pensar não é uma opção voluntária do ser humano, antes é involuntária. Não podemos interromper a produção de pensamentos; mas podemos gerenciá-la.

Governamos com certa facilidade o mundo exterior, mas temos enorme dificuldade em gerenciar o nosso mundo interior; o dos pensamentos e das emoções. Somos subjugados por necessidades que nunca foram prioritárias, por paranóias do mundo moderno: o consumismo, a estética, a segurança. Assim, a vida humana, que deveria ser um espectáculo maravilhoso, para muitos torna-se um espectáculo de terror, de medo, de ansiedade. Quem dá aconselhamento pastoral há de convir que nunca lidamos com tantos sintomas psicossomáticos: cefaleias, dores musculares, fadiga excessiva, perturbaçoes do sono, transtornos comportamentais; a lista é infindável.

Cristo tanto prevenia contra a ansiedade como discursava sobre o prazer de viver. Dizia: “Olhai os lírios do campo.” Queria que as pessoas fossem alegres, inteligentes sim, mas simples. Tal qual muitos dos ouviam aquele contundente sermão, muitos de nós não sabemos contemplar os lírios do campo, isto é, não sabemos extrair o prazer dos pequenos momentos da vida. A ansiedade sufoca esse prazer.

O que se constata nesta geração Pós-moderna é que até é possível obter sucesso econômico, mas ser um “rico pobre”, sem o prazer de viver, de contemplar os pequenos detalhes da vida. É possível ser um grande executivo e controlar uma multinacional, mas não ter domínio sobre os próprios pensamentos e reacções emocionais, ser um espectador passivo diante das mazelas psíquicas.

Cristo não estudou os postulados teóricos da medicina. No entanto, dava aconselhamento médico e era tão sofisticado em sua inteligência emocional que praticava a Psicologia preventiva quando esta nem ensaiava existir. E seu consulsultório era despojado, ao ar livre, como nos informa Mateus (5.1), no registro deste sermão que ficou conhecido como o Sermão do Monte.

Ao invés de nutrir uma ansiedade doentia, experimente praticar o receituário do Médico dos médicos: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.

Soli Deo Glória!

* Pr. Samuel Silva, Diretor do Instituto de Educação Religiosa de Campo Grande - ISERCAMP e Sec. Relações Públicas da COMADEMS.

**Esta reflexão segue a loguia de Cury, Jorge. O Mestre dos mestres: Jesus, o maior educador da história. Rio de Janeiro: Sextante.