Paulo – um modelo de líder servidor

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James Hunter, autor de “O Monge e o Executivo” tem o mérito de resgatar, com maior notoriedade que outros formadores de opinião, algumas idéias sobre a essência da liderança, revolucionárias para os tempos modernos da competitividade corporativa, mas antigas e bem conhecidas pelos estudiosos da Bíblia. Entre essas idéias três se destacam: o verdadeiro líder é um servidor, o amor é base para a liderança e o amor só tem sentido se encorajar à ação.


“O Monge e Executivo” trata de liderança em diversos ambientes: militar, educacional, esportivo, familiar, assistencialista, empresarial e eclesiástico. A pregação de Hunter, embora generalista, ecoou notadamente nos ambientes competitivos do mundo empresarial. Já a mensagem cristã é destinada para um ambiente altamente cooperativo, que é a Igreja, que vive unida em Cristo. A motivação dos discípulos de Hunter é obter promoção no mundo dos negócios; o objetivo dos discípulos de Cristo é a promoção dos negócios do Reino dos Céus (Lc 2.49).

Porém, com a proliferação do Evangelho e o surgimento de muitas congregações, líderes religiosos buscam lições no mundo dos negócios (marketing, finanças, administração de pessoas, etc.) para melhor administração das igrejas. Para o caso da liderança, Hunter mostra que a solução está na Bíblia. Para Hunter, o maior líder de todos os tempos é Jesus. E se Jesus demonstra tanta influência na humanidade, todos devem prestar atenção no seu estilo de liderança.


Jesus é o maior líder que já existiu

Jesus é quem cria a doutrina da liderança pelo serviço. Quem quiser ser o maior no Reino de Deus deve procurar servir; o próprio Jesus era o Filho de Deus encarnado para prestar, com sacrifício extremo, o maior serviço em prol da humanidade: morrer na cruz para a salvação dos pecadores (Mt 20.26-28).

Para sedimentar na mente de seus seguidores a necessidade do serviço prestado com humildade, Jesus deu o exemplo quando lavou os pés de seus discípulos (Jo 13.4-15). O hábito de lavar os pés dos hóspedes era normalmente executado por um escravo ou por um dos filhos menores da família. No grupo de Jesus, para tal demonstração de hospitalidade, esperava-se que um dos discípulos menos celebrados fosse responsável pela tarefa. Mas Jesus surpreende a todos, interrompendo sua refeição para honrar aqueles que eram menores que Ele.

O apóstolo Paulo entendeu essa necessidade em seu ministério. Mais que isso, considerava-se um imitador de Cristo e pedia aos seus liderados que o imitassem (1 Co 11.1).


A liderança de Paulo era dada por Deus

Por que Paulo e a sua liderança deveriam ser reconhecidos? Paulo não deu escândalo em coisa alguma para que o ministério não fosse censurado (2 Co 6.3). Além disso, uma série de fatores presentes em seu ministério mostrava que Deus é que orientava suas ações: as dificuldades, as virtudes, e a resiliência e constância (2 Co 6.4-10). O abatimento físico e o vigor espiritual formavam um contraste que mostravam a glória de Deus. (2 Co 4.16-18).

O Espírito Santo estava presente na vida de Paulo (2 Co 6.6). Todas as qualidades de sua liderança são associadas à presença do Espírito Santo (1 Co 12.7,8; Gl 5.22). O ministério de Paulo é do Espírito e reflete o Espírito. (2 Co 3.6,8,17,18). O Espírito faz florescer as virtudes. A operação do Espírito no líder cristão é essencial para a liderança ser aprovada por Deus.

Paulo era cooperador de Deus (2 Co 6.1), pois Deus o chamou, deu-lhe o ministério da reconciliação (2 Co 5.18) e apela aos homens através dele. Está sob comissão e autoridade divina; não realiza sua própria obra, mas a obra de Deus. O líder servidor é o que não recebe a graça de Deus em vão. O que seria isso? Como evitar a nulidade efetiva da graça de Deus na vida dos cristãos? Produzindo frutos para o Reino de Deus e fugindo dos embaraços do mundo. Entre esses embaraços estão aqueles decorrentes de associações com os infiéis, que podem produzir dificuldades para o cristão, colocá-lo em jugo desigual. As atitudes dos cristãos devem ser atitudes cristãs (2 Co 6.14-17).

Ter uma conduta ilibada, pura (2 Co 6.6), mesmo diante das enormes pressões que sofria, é uma preocupação de Paulo, não para sua própria exaltação, mas para a efetividade de seu ministério. (2 Co 6.3). Paulo mostra aos seus liderados que suas aflições não são suficientes para fazê-lo transgredir. O amor que tem à obra deve-se à preocupação com os resultados que sua carreira cristã produziria em prol do Reino de Deus. Qualquer ministro do evangelho que, de alguma forma, permite manchas em sua conduta pessoal ou ministerial sabe que terá grandes dificuldades em se fazer ouvir, ainda que pregue a genuína mensagem da Palavra de Deus e, por conseqüência, em exercer com desenvoltura a liderança na Igreja.

O amor e as competências do líder são graça de Deus para produzir frutos


Para uma liderança frutífera, Hunter mostra a necessidade das seguintes competências: paciência, gentileza, humildade, respeito, altruísmo, capacidade de perdoar, honestidade, comprometimento e sacrifício. Na liderança cristã, essas competências são associadas ao amor para produzir os resultados úteis para a edificação da Igreja e para a glória de Deus.

Por outro lado, as tribulações e as angústias são fatores desestabilizadores que atingem a vida do cristão e podem comprometer o amor e as competências necessárias à liderança. Por isso, a resiliência, capacidade de absorver os impactos e permanecer firme nos seus propósitos, é um atributo importante para o líder. O líder resiliente mantém seu amor e desenvolve suas competências mesmo diante das adversidades. As tribulações e angústias não comprometem a qualidade de seu serviço.

O líder cristão é cooperador de Deus e sabe que a reconciliação é de iniciativa divina. A liderança na Igreja é exercida nesse sentido de cooperação, em que o fim não é a promoção pessoal, mas a efetividade da mensagem reconciliadora. Ainda mais, essa liderança promove a formação de líderes, novos ministros da reconciliação. O líder cristão é feliz em constatar que muitos de seus filhos na fé poderão superá-lo nos bons resultados do ministério, para que o ganho seja do Reino de Deus e a glória para o Senhor. A mensagem de Paulo, corroborada com seu exemplo de vida, produziu frutos; novos líderes desenvolveram a fé de maneira similar à do apóstolo, de forma desenvolver a resiliência ao passar pelas dificuldades da vida. (1 Ts 1.6-8; 2.14; 3.2-8. 2 Ts 1.4,5). Paradoxalmente, o sucesso na liderança cristã é associado à auto-renúncia do líder (Mc 8.34), que é apenas um vaso de barro que guarda um tesouro valiosíssimo: a luz do Evangelho (2 Co 4.7).

O poder de Deus está nesse tesouro (2 Co 6.7). A força para o exercício da liderança vem de Deus (2 Co 4.7). Os liderados serão beneficiados pelo poder de Deus através da atuação do Espírito Santo (1 Co 2.4,5; 1 Ts 1.5).

O foco da liderança de Paulo está na mensagem de Cristo e não no seu próprio desenvolvimento ministerial ou reputação. Paulo não importa se os seus detratores têm motivação de suplantá-lo na pregação do evangelho. Pelo contrário, regozija-se porque o Evangelho é pregado ainda que por meio da insensatez dos seus opositores (Fp 1.14-18).

A justiça de Deus é manifesta no evangelho (Rm 1.16,17). As armas do líder (2 Co 6.7) não são carnais (2 Co 10.4,5). Isso mostra que métodos competitivos que sejam enganosos e antiéticos sob a visão cristã, que estão presentes em muitos líderes desonestos, não devem pautar a busca pelo sucesso. As armas são espirituais e providas pela justiça de Deus. O líder cristão é um soldado honesto, que luta francamente, sem subterfúgios, e mantém a confiança na vitória.

As armas espirituais são usadas à direita e à esquerda (2 Co 6.7). Os soldados contemporâneos de Paulo utilizavam espadas e lanças - armas de ataque - na mão direita e um escudo - arma de defesa - na mão esquerda. Assim, Paulo mostra que a ética cristã permanece inabalável quando investe na luta espiritual, quer seja na pregação, no ensino ou na própria edificação, quer seja na defesa; quando é atacado, suas táticas ainda são francas e orientadas pelo Espírito. Quando sofre, o escudo da fé; quando prega e ensina, a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6.16,17).

Paulo é consciente sobre a grande oportunidade que a dispensação da graça oferece (2 Co 6.2). Por isso, Paulo vive intensamente as dificuldades e as alegrias do evangelho; aproveita cada momento na evangelização e no ensino para corresponder da melhor maneira à graça divina. Em visão escatológica, cita Isaías para convencer os seus liderados a aproveitar a atualidade da graça. (Is. 49.8; 2 Co 6.2). O conhecimento e a compreensão de Paulo (2 Co 6.6) não fazem uso apenas da intelectualidade, mas do entendimento pelo espírito. O líder cristão deve ter capacidade de avaliar uma situação e tomar decisões apropriadas adotando uma visão espiritual, de acordo com os propósitos divinos (Rm 12.2).

O esforço de Paulo (2 Co 12.15) como servidor na obra de Deus é o exemplo de que a graça de Deus em sua vida não foi aviltada (1 Co 15.10). Seu esforço, interesse e disposição para o labor é resultado dessa graça. E os resultados (1 Ts 2.1; 1 Tm 1.13-16) de seu ministérios somente foram consumados porque primeiramente ele valorizou a graça de Deus e entregou-se para a operação dessa maravilhosa graça em sua vida.


A resiliência do líder é graça de Deus

O labor teológico de Paulo é demonstrado não somente na sua pregação, na sua doutrina, no seu interesse em ensinar e nas revelações, mas é provado pela longanimidade (2 Co 6.6) diante do sofrimento.

A liderança de Paulo é atestada por sua reação diante de três tipos de sofrimentos: as vicissitudes da vida, as agressões vindas de outras pessoas e a disciplina pessoal.

Vicissitudes da vida

Aflições

1 Co 4.11,12; 2 Co 1.4-8; 4.11,17; 8.2; 11.25-26; 12.7

Necessidades

2 Co 6.4

Angústias

2 Co 1.8; 2.4,13; 7.5; 11.28; Fp 2.27

Agressões alheias

Açoites

At 16.22,23; 2 Co 11.24,25; 1 Ts 2.2

Prisões

At 16.19,23,24; 1 Ts 2.2; Fp 1.12-14

Tumultos

At 9.23-25; 14.19; 16.19-22; 17.5-8,13; 1 Ts 2.2

Disciplina pessoal

Exaustão laboral

1 Co 4.12; 2 Co 7.5; 11.27; 1 Ts 2.9

Noites em claro

2 Co 11.27; 1 Ts 2.9

Alimentação insuficiente

1 Co 4.11; 2 Co 11.2



Paulo mostra resiliência diante das dificuldades como prova da presença de Deus em sua vida. Quem poderia suportar tanto sofrimento, manter as virtudes, com constância nos altos e baixos da vida, sem a operação da graça divina em si? Quem mantém a benignidade (2 Co 6.6) diante das agressões?

Paulo seria desqualificado como líder se, para fugir das tribulações, deixasse de realizar a vontade de Deus. Assim, Paulo mostra à Igreja que suas tribulações não são um castigo por seus erros, sequer os pecados, mas são as paisagens do caminho que precisa percorrer para cumprir os propósitos de Deus para a evangelização do mundo (At 9.15,16). O líder cristão demonstra maturidade nos altos e baixos da vida. Em alguns momentos será aplaudido e em outros será criticado, seus detratores serão desleais e mesmo os liderados poderão abandoná-lo. Paulo expressa isso, dizendo que permanece recomendável na honra e na desonra, na infâmia e na fama (2 Co 6.8).

Passar por aflições não faz de ninguém um bom líder. O que diferencia um ministro cristão bem sucedido é a reação positiva e produtiva diante de tantas aflições. As tribulações na vida de Paulo não produziam desespero, mas esperança, porque encontram no apóstolo a graça de Deus (Rm 5.3-5).

Paulo também usa sua resiliência como lição para a vida de seus liderados. Paulo quer que, tomando seu exemplo, encontrem consolação nas Escrituras, dêem lugar à graça e sejam resilientes diante dos sofrimentos (Rm 15.4). Sua oração por eles é que tenham consciência da vontade de Deus, usem seus recursos intelectuais de acordo com a inspiração do Espírito Santo para produzir frutos para o reino e para crescer no conhecimento de Deus (Cl 1. 9-11).

Os crentes não são chamados somente para participar do conforto da Igreja, olhar para os que sofrem pelo evangelho e permanecer estáticos, aplaudindo a fé alheia (2 Co 6.1). O exemplo de Paulo é para que cada um de nós perceba que pela graça de Deus é possível passar pelas aflições e manter a postura cristã (Fl 1.29,30).

O líder servidor cristão atinge os objetivos do Evangelho

O amor, as competências e a resiliência são resultados da operação da graça de Deus na vida do cristão que se propõe a produzir resultados servindo na obra de Deus.



O poder de Deus e a presença do Espírito Santo são manifestos quando essas qualidades estão presentes na vida do líder, mesmo em meio às dificuldades. As tribulações vindas do ambiente hostil e as angústias decorrentes das próprias inseguranças que nascem na alma humana (2 Co 7.5) deixam marcas no corpo e no semblante do líder, mas não comprometem o serviço prestado para a expansão do Evangelho, a edificação da Igreja e a glória de Deus.

Por isso, Paulo recomenda a Timóteo o compromisso com o Evangelho, mostrando que o seu próprio ministério fora cumprido com diligência e demonstrando certeza da recompensa na glória eterna (2 Tm 5.5-8).




FONTES:

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LACERDA, Daniela. Faça como Jesus! Entrevista com James Hunter, o autor de O Monge e o Executivo. Disponível na Internet em 12/2/2010 em http://www.jameshunter.com.br/artigo3.aspx.

MORAIS, José J. As marcas da fé cristã. Pregação realizada em 22/2/2009 na Assembleia de Deus - Missões - em Campo Grande, MS. Vídeo disponível em http://www.iadcg.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=992&Itemid=2 em 12/2/2009.